Cada vez mais popular, os “kits” paralelos tornam nosso trânsito cada vez mais perigoso

Quando o Código de Trânsito Brasileiro foi criado, em 1997, dentre as várias novidades estava a obrigatoriedade do airbag. Vetada pelo então presidente na época, FHC, sua justificativa era de que, além de outros fatores, obrigar as bolsas seria negativo algum tempo depois, pois uma nova tecnologia poderia substituir o equipamento e viveríamos tendo de conviver com o sistema “antigo”. Como se uma lei não pudesse ser refeita, o parágrafo mostra que os sistemas automotivos evoluem, e as leis devem acompanhar.
O farol de gás xenônio, conhecido internacionalmente como HID (descarga de alta intensidade) e por aqui simplesmente como xenon, começou a chegar no meio da década de 90 em carros luxuosos, como Mercedes e Audis. Com uma lâmpada mais econômica e que iluminava muito mais, era a clara evolução perante nossos faróis halógenos. Na época, cada lâmpada custava cerca de 15 mil reais, fora o reator, igualmente caro (essas lâmpadas funcionam como as luzes frias de escritórios, necessitam de reator para acender). Por se tratar de um equipamento novo e raro, bem testado pelas fábricas que o usavam e permitido no exterior, simplesmente foi ignorado por um bom tempo pela lei.
Hoje, porém, é possível colocar em qualquer carro as tais lâmpadas, a famosa “instalação posterior”, por uma média de 300 a 1500 reais, dependendo da marca e local de fabricação. Com isso, o xenon se popularizou e é visto em todo tipo de carro, cada vez com mais freqüência. E é aí que mora o perigo, pois não é todo tipo de farol que aceita o sistema sem ofuscar completamente quem vem no sentido contrário. Cabia ao policial avaliar se o carro equipado com o HID poderia rodar ou não. Como vinha de fábrica nos modelos importados, porém, dificilmente o cidadão que use o xenon instalado posteriormente era penalizado, mesmo porque não havia lei. Até agora. Quase quinze anos depois do começo da venda do equipamento por aqui, o Contran interveio e criou a resolução 227, que entra em vigor a partir de março de 2009. Nela é regularizado a situação das lâmpadas em carros novos e os que são instalados posteriormente. Novamente, a lei burra prevaleceu: enquanto há uma rigorosidade européia nos sistemas de carros 0km, nos usados a farra é total.
Explicando: a partir do ano que vem, quando um carro sair de fábrica com o xenon, deve ter obrigatoriamente lavador de farol e regulagem automática de altura do facho. Isso porque, como é uma luz muito mais forte, se ofuscada causa muito mais cegueira que um sistema convencional. Nesse caso, o lavador da lente ajuda a manter o farol sempre limpo, para que nenhuma intervenção na lente desvie o facho, enquanto a regulagem automática de altura garante sempre que se ilumine somente a estrada, mesmo que o carro esteja cheio. Exatamente como são as rígidas leis na Europa e que se espalham mundialmente.
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Xenon opcional, farol novo: quem pede o opcional no Jetta e C4 (E), leva, alêm das lâmpadas, projetores, lavador e regulagem automática de altura do facho. Uma grande diferença em relação aos sistemas simples (D), mostrando que é bem mais que só trocar as lâmpadas
Há ainda uma pressão psicológica para que os faróis com HID sejam do tipo elipsoidal, com projetor, como o do Marea e dos Astras mais novos. Isso porque esse sistema de lentes ofusca bem menos quem vem no sentido contrário, tendo uma divisão de corte no facho quase perfeita. Hoje é praticamente impossível achar fabricantes que usam faróis de xenônio em seus modelos sem o projetor. Há casos até que, quando se pede o opcional, o arranjo interno do farol muda, como no Jetta e no C4 (veja acima).
Até aqui, tudo perfeito. Todo o rigor acaba, porém, no caso de xenon instalado posteriormente, os conhecidos “kits”. Neste caso, a única exigência feita pela lei é que a lâmpada tenha uma temperatura de cor inferior a 7500 kelvin (ou seja, entre o branco e os tons amarelados das lâmpadas halógenas — aqueles faróis azulado e roxo estarão proibidos). O problema acontece quando se coloca xenon em faróis que não foram feitos para tal. O resultado é o ofuscamento, por mais que se regule perfeitamente o facho. Os faróis comuns foram feitos para funcionar com lâmpadas mais fracas. A partir do momento que se instala no automóvel um sistema três vezes mais potente, até a lua é iluminada. Pra quem vem em sentido contrário, é um farol alto permanente.

Um claro exemplo: nesse Explorer, feito pra usar lâmpadas halógenas comuns (E), a instalação do xenon (D), bem mais forte, ilumina tudo que está na frente, mesmo que com o facho bem regulado
Lugar de farol de xenon é no bloco elíptico. E ponto. Somente nesse caso deveria haver regularização. Quem não tem o sistema, não deveria nem chegar perto das lâmpadas, pois o estrago é total. Logicamente varia de modelo pra modelo, mas não existe um carro com faróis de lentes comuns (Polo, Corsa, Gol, Stilo, Golf) que não ofusque com o xenon instalado. Na Europa é comum, no caso de se instalar o equipamento posteriormente, a venda também do farol com bloco elípitico. Não é difícil ver por lá Golfs ou Corsas com o HID instalado, em faróis modificados que englobem a lente elíptica.
A discussão pararia aqui, mas existem os poucos carros que ainda saem de fábrica com xenon e sem o bloco elíptico, e que ainda cria dúvidas na cabeça de muitos, como Subaru Forester, Nissan Pathfinder e até bem mais popular, nosso Corolla SE-G. Nesses casos, porém, há ressalvas: por usarem lentes transparentes comuns, esses carros têm lâmpadas desenvolvidas especificamente para eles, além de vários testes que passam antes de serem homologados pelas fábricas. Não é do tipo “kit que serve em qualquer carro que use lâmpadas padrão X”. Sem contar ainda que todas as montadoras, com raríssimas exceções, usam xenon entre 4300 e 4500 kelvin, o branco perfeito (para a física, não para o olho humano). Praticamente todos os kits a venda no mercado comum de acessórios está acima de 6000k, um branco mais azulado que incomoda mais o olho humano.

Como é na Europa: se você quer colocar xenon no seu carro que saiu de fábrica sem o equipamento, deve trocar toda a peça: o Golf ganhou projetor específico para a lâmpada, ilumina mais e garante a mesma segurança a quem vem em sentido contrário. O bom-senso predomina
Mas, no Brasil, farol pode ofuscar. A farra está permitida. Quem quiser coloque. Seja por segurança de se enxergar melhor, ou mesmo por estética (infelizmente, a maioria, que coloca xenon até nos faróis de neblina, invenção inútil brasileira que não existe lá fora), o sistema está se popularizando cada vez mais, e está cada vez mais difícil dirigir sem ser incomodado pelos “kits” paralelos. A lei, que acabou de ser bolada e nem entrou em vigor ainda, deveria ser revista. Mais uma pra lista.
Texto: Adriano Vieira
Críticas e sugestões: dricoura@hotmail.com
Escrito por Redação 
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